Uma crítica a Breviário de Canudos de Racine Santos

  Nem tudo são espinhos na crítica. Mesmo o mandacarú, além do figo-da-índia, para os homens, pode ter seus ramos aproveitados pelos animais de criação. Mas se os cactus têm espinhos no lugar de folhas, e raízes profundas, é porque na estiagem é preciso contenção e rigidez. Mas visto esse nosso mandacarú, vamos nesta jornada do fruto doce aos espinhos amargos e, por fim, removendo-os com facão, à palma nutritiva.

Na nossa Natal oficial, Racine Santos é um dos grandes, às vezes tido como o maior dramaturgo potiguar[1]. Fundador da Associação dos Dramaturgos do Nordeste, montou, com uma parceria com a Fundação José Augusto, a coleção Teatro Nordestino. Salvo engano a proposta era de 4 volumes, mas ao que parece só saíram 2. Consta no volume uma peça sua [2], e as demais são de autores diversos. Não tive ainda a oportunidade de lê-los, mas é de se constar o seu esforço pelo teatro. Sua obra é predominantemente composta de teatro, mas há também poesia e romance. O comentário que teço aqui parte da leitura das peças A Farsa do Poder, ganhadora do Prêmio Nacional de dramaturgia Paulo Pontes em 1989, Elvira do Ypiranga e do livro de poesia Breviário de Canudos, publicado em 2021 pela Offset, mote em torno do qual girará a presente crítica.

A leitura das peças muito me agradou. Consegui-as através do livro Duas Farsas Nordestinas, de 2001. Ambas em tom pitoresco e popular. A linguagem simples e fluida, a presença, em ambos, de um como que parente de João Grilo (não o do Suassuna, o da tradição de onde vem o dele), que é uma das máscaras que veste o poeta popular, mas falemos disso em outro momento. O que existe nas três peças é a expressão que circula pela força de Ariano Suassuna, nascido de Machado de Assis, a respeito do Brasil oficial em oposição ao Brasil real. Suassuna fixou de vez essa tradição na disputa de Canudos entre a população que desejava a Monarquia (e acreditava ainda estar nela) e o governo republicano que, para manter sua estabilidade, precisou mandar o exército até a região para queimar a plantação e nivelar o terreno onde se construiria o novo Brasil. Tragédia para monarquistas e republicanos, apoiadores de direita ou esquerda, não tão menos trágico é a marca revelada, desde Canudos, dessa confusão entre a elite e o povo. Essa é uma história que merece uma edição à parte. O que nos cabe aqui, porém, é apontar que, seja em Euclides da Cunha, seja em Graciliano Ramos, em Ariano Suassuna, em Racine Santos, na Praça É Nossa e nas conversas cotidianas, há um costume imbricado de zombar em tom cada vez mais descarado dessa separação. Em Os Sertões é uma tragédia; em Vidas Secas Graciliano, em uma tragédia menos dramática, separa o patrão, bruto e burro, do "bom patrão", Tomás da bolandeira; em Suassuna virou o Auto da Compadecida, mas também a personagem da cidade que visita o poeta preguiçoso na Farsa da Boa Preguiça; em Racine temos uma farsa popular, isto é, uma comédia formada por um enganando o outro; em figuras como a do deputado João Plenário, virou apenas humor. Racine produziu suas peças unn 30 anos depois das de Suassuna, e de 10 a 20 anos antes do personagem da Praça é Nossa. Em Suassuna, os cangaceiros matam sem pestanejar o Padre, o Bispo e o Major Antônio Morais, mas recusa terminantemente matar o Frade. Havia uma distinção clara entre o Tomás da bolandeira, o homem espiritualizado, e o patrão, burguês, de nome desnecessário. Essa distinção se dissolve e, no máximo, aparece na figura de João Grilo.

O Racine estabelece uma crítica bastante pertinente. Sua Farsa do Poder é uma demonstração bastante verossímil de como os dirigentes ficam presos nas suas próprias teias e, para se safar, precisam recorrer aos recursos mais estapafúrdios. Com bom humor e um final inesperado, Racine apresenta personagens que simbolizam aspectos da sociedade e os coloca em diálogo em uma situação de crise para mostrar onde está o poder e como ele de fato se manifesta. Dica: a inteligência está acima, mas nem todo mundo consegue ser inteligente o tempo todo. E essa mescla forma o humor da trama. Achei a peça tão boa que o título parece ser apropriado. Um título desses tem peso: se chamo uma obra de "Farsa do Poder", significa que eu estou querendo montar uma proposta quase que arquetípica, universal, da proposta. Sem deixar de compô-lo como uma farsa, portanto popular e humorística. Realmente acho que o Racine conseguiu fazê-la. Não posso, porém, de me perguntar, como seria um "auto do poder".

A segunda peça do volume, Elvira do Ypiranga, me chamou atenção desde o título. Paródia muito apropriada com o hino nacional, não deixa, é claro, de manifestar aquele quê de iconoclastia brasileira que está presente seja no ódio aos monumentos nacionais, como diagnostica o linguista Mário Eduardo Viaro, seja na facilidade com que a aversão evangélica aos símbolos religiosos se expande pelo país. Ambas, porém, ilustradas na perda do sentido entre o símbolo e a vida, como na separação do Brasil oficial com o real. Seja como for, a peça constrói o enredo à partir da espera, no hino, pelo brado heroico de um povo forte, que não é nem forte, nem heroico, nem do povo. A peça é o processo de uma espera onde se revela muito da tolice oficialesca do país. Se na primeira peça estamos diante de um regime democrático, a segunda é uma paródia com o período da ditadura/intervenção militar no país.

Acredito que ambas as peças valham a leitura. Se não são lidas, não é culpa da falta de reconhecimento em si. É preciso lembrar que a literatura clássica não é mais lida, e cada vez menos está presente até mesmo na escola; se nem a clássica é lida, menos ainda a brasileira; se nem a nacional é lida, menos ainda a local. Havia um vídeo online onde Suassuna reconhecia que sabia que não era lido, e, imagino eu, não por acaso ele apelava às aulas-espetáculos. Hilda Hilst tentou apelar para a pornografia, Bruno Tolentino, seu amigo, para a formação de um público leitor, Olavo de Carvalho, amigo do último, para o estilo de programas de TV sensacionalistas como os do Alborghetti ou Programa do Ratinho. Isso aconteceu pelo sumiço dos leitores, como pelo sumiço da crítica [3]. Convenhamos: quem leu (atenção: ler, não assistir) o Auto da Compadecida? A Pena e a Lei? Pior ainda, o Romance da Pedra do Reino? E quem, aparte os alunos da disciplina obrigatória no curso de Letras Português "Literatura Portuguesa I", arriscaria gastar tempo (que é dinheiro) para ler as peças do português do século XV e XVI Gil Vicente, para entender a relação entre os autos da Idade Média e as peças de Suassuna? Não, não, mas a culpa não é de Racine, nem dos divulgadores de cultura como o Papo Cultura, nem das editoras, nem da escola, nem do público: ou a culpa está, relativamente, em cada um de nós, ou simplesmente foi o que aconteceu, não sabemos como, "só sei que foi assim".

Ora essa, agora é hora do protagonista deste texto: Breviário de Canudos. Foi com ele que primeiro conheci o Racine. Cheguei por mero acaso, no meio caminhar em um passeio pela feira de livros que teve no Parque das Dunas mais cedo em 2023. Abri sem expectativa e sem saber de quem se tratava o autor, e tomei um choque. Canudos? Métrica? Cordel? Valei-me! Saltei umas páginas. Terza rima! Cheguei a métrica, a rima, era mesmo! Adquiri na hora, sem nem ver o resto. Um leve mal pressentimento. A capa, com aquela torre onde tem escrito o "a" mais parece um chapéu do Ku Klux Klan. E ainda assim, parecia xilogravura! E uma incrivelmente complexa! E era mesmo! Com tema na Guerra de Canudos, o livro do Racine Santos se propunha a compor um cordel em 10 folhetos, num quê de epopeia trágica. Justiça seja feita, houve, até onde sei, uma outra tentativa, anterior a essa, de compor um poema a partir do drama de Euclides: veio das mãos de Carlos de Newton Júnior, discípulo de Ariano Suassuna e seu movimento armorial, no livro chamado Canudos: Poema dos quinhentos [4]. Assim que o descobri, senti igual empolgação ao ver que o livro também jogava com várias formas possíveis para poesia de cordel. Musicalmente e tecnicamente falando, o livro do Carlos me parece mais rico do que o do Racine. Mas admito que não tive vontade de ler aquele até o fim, porque, estritamente apegado à poética armorial, mescla na narrativa um conjunto de referências de um folclore inexistente no nosso povo, mas existente na cabeça de uns poucos autores. A recriação tem seu valor, é claro, mas sem o Suassuna para vivificar esse folclore com sua presença, restam apenas os destroços de um conjunto imagético irreal. Não tivemos um segundo Ariano, e o Carlos, apesar de estudioso e discípulo do primeiro, e de ter ele próprio composto uma “Iniciação à obra de Ariano Suassuna” (ver O Circo da Onça Malhada), não conseguiu ter o carisma criador que tem o seu professor.

Mas quem imaginaria que, numa época em que, de um lado, tem a arte desvinculada da técnica como norma (ironia para a agora pobre palavra), de outro, tem o esquematismo melódico do cordel levado aos extremos do tédio não-poético como no caso da Tragédia de Neynburg de Manuel de Azevedo (comentarei sobre ele em outra ocasião), de repente, ver brilhar, em ambos os casos mencionados há pouco, uma poesia em cordel, mas viva e técnica renovou minhas esperanças. Quando vi a terza rima bem posta, já pensei: é o Racine potiguar! Considerado o maior dramaturgo francês, de fato talvez estivesse diante do maior dramaturgo potiguar, xará do outro. Musicalmente gostei bastante. É curta, o que desanima um pouco, mas concisa. Como disse, o Carlos parece brincar mais com as possibilidades sonoras, mas o Racine não fica atrás em potencial. No Breviário de Canudos, até onde notei, há 3 metros: a rima convencional, de 7 sílabas poéticas e 6 versos (ABCBDB, ou seja, rimas no 2º, 4º e 6º versos); o martelo agalopado, mais complicado, de 10 versos com 10 sílabas poéticas (ABBAACCDDE) cada um. Ambas também aparecem no livro do Carlos. E aí em um certo momento temos a rima dantesca. Ah! Dela terei que comentar. Mas antes dela, é preciso aumentar as apreciações.

O livro está repleto de xilogravuras. Muito bonitas por sinal, sobretudo a do verso da página de anúncio do epílogo, que sintetiza boa parte das demais gravuras. Para quem não sabe, a xilogravura é a arte de talha na madeira: é a base do que chamamos de pintura no Japão, e no Brasil era usada sobretudo em cordéis. Tomada como algo banal no país, foi elevada ao estado de arte pelo movimento armorial, sobretudo no desenvolvimento técnico do artista Gilvan Samico. Talhe com madeira significa que os desenhos que vemos em muitos dos cordéis (ou na pintura japonesa, como em A Grande Onda de Kanagawa) são feitos por um trabalho árduo de marcar com uma ferramenta cada risco em madeira. Feito a matriz, é só colocar a tinta para então imprimir a imagem no papel. Torná-la arte significa desenvolver tanto as ferramentas de trabalho e seus modos de uso, como também os temas e tipos de obra possíveis. A xilogravura comum brasileira é representada pelo J. Borges; o desenvolvimento, por Gilvan Samico. As peças que vemos no livro de Racine Santos foram compostas por Ciro Fernandes, e vemos, nelas, um grande domínio da habilidade de entalhe. Encaixar a xilogravura, arte popular e brasileira, para ilustrar uma narrativa considerada fundamental para descrever as situação brasileira, e encaixá-la com o cordel bem composto é algo que casa muito bem. É, portanto, revelador de um senso estético apurado. É também, na minha opinião, a mistura entre métricas: a epopeia clássica tinha metro fixo; em Gonçalves Dias, Fernando Pessoa, Jorge de Lima, Bruno Tolentino, vemos uma tendência ainda não superada das múltiplas formas, como se para celebrar o poder da poesia e da mescla de povos. Faz mais do que sentido, por exemplo, sobretudo em oposição à proposta potiguar de Manuel de Azevedo, um cordel com múltiplas formas. E ainda assim...

Quando tive coragem de ler de fato o livro, sabia que viria algo ruim. E veio. Todo ele é bom, apesar de pequeno. Mas a terza rima, apesar de bem feita, peca em algo tão grave que me revelou até uma falha de caráter do autor. Não é incomum, com exceção da situação contemporânea, brincar com a rima de Dante. Conheço e consigo lembrar para citar, até agora, nossos Drummond e Cecília: aquele em seu A Máquina do Mundo; esta, mais brincalhona, vi em três casos: Epitáfio da navegadora, Vigília do Senhor morto e Canção tardia. Os quatro poemas são quatro propostas distintas com a forma de Dante, em conteúdo e forma: Drummond imita o metro, mas quebra a rima; Cecília mantém a rima, mas no primeiro troca as 10 sílabas poéticas de Dante por 8; no segundo, por 11; no terceiro mantém as 8, mas constrói refrões como se fosse uma canção. Drummond impede a rima de acontecer (o que é diferente de não rimar) para mostrar, no conteúdo, o limite que vai a poesia moderna; Cecília, que não brinca de poesia moderna, mas de si mesma, canta inocentemente seus sonhos mais belos e melancólicos. A versão do Racine, talvez por imitação do cordel, não encadeia a rima do verso do meio com o primeiro e terceiro versos da estrofe seguinte. Pode ser inabilidade técnica, pode ser coerência de estilo. Em possibilidades técnicas, é permitido. Mas existe, nos quatro, coisas que não existe no folheto do Racine. Primeiramente, o verso final, solto, que faz a finalização em cada final de canto para não deixar o verso do meio do último terceto solto no ar. É verdade que Cecília brinca com as possibilidades desse verso, e Drummond não o coloca, porque, afinal, não quer rimar; talvez Racine não o tenha colocado por não querer rimar o verso do meio. É um caso menor. É possível, ademais, que tenha assim feito porque nos demais folhetos não há essa finalização, e todos eles são compostos de 10 estrofes, nem mais nem menos, com exceção do epílogo, com duas (não arrisco um porquê). Mas há um caso mais grave.

O caso realmente grave no livro do Racine é o motivo do uso da terza rima. Eu estava feliz, achei um poeta contemporâneo que brinca com formas! Mas, afinal, nem tudo são flores. Racine quebra o fio narrativo do cordel para usar a rima de Dante na hora do ataque do exército ao povo. "Sob um sol de constante meio-dia / Marchavam com a missão de destruir / Um Brasil que o Brasil desconhecia". Existem dois sentidos implícitos no uso com esse conteúdo. Primeiro é o sentido contemporâneo e popular da palavra dantesco, usado para representar algo grotesco e trágico. Derivado do fato de que hoje em dia em geral só se leem os cantos do Inferno, por acharem mais verossímeis (isso é um mal sinal), a associação de Dante com o grotesco se espalha na cultura pop, por exemplo, em obras como Dante's Inferno ou Devil May Cry. Um uso mais real está em Silent Hill ou Little Misfortune, mas não convém expandir aqui. O segundo sentido é de que a rima de Dante e Dante, em oposição ao cordel e ao cordelista, representam o Oficial em oposição ao Real. E então volta a imagem dos coronéis, dos padres e bispos corruptos, dos broncos patrões, do exército que se opõe ao desejo popular... e tudo isso associado a Dante. Uepa! Aí não, meu patrão! Aí a cobra vai fumar!

Se eu afrouxasse a crítica, poderia dizer quer associar Dante ao inferno é algo permitido na poesia. Se fosse ao menos comum! Mas nos quatro casos ilustrados, os poetas sabiam exatamente que tipo de conteúdo cabia na forma, aí sim, dantesca. As formas têm sentimentos! São temperamentais. Cada forma exige certas coisas, e despreza outras. Não dá para contar uma piada como quem vai fazer um discurso formal - a não ser que o piadista seja bom a ponto de usar a forma como encaixe dentro da forma pior, a piada. Idem, se uma pessoa vai declarar seu amor para uma pessoa, não vai chegar com um facão para matar o ser amado. Nem Rita começaria um relacionamento assim! Mas, tudo bem, é possível perguntar o contrário: se não Dante, que forma enfatizaria o horror da matança? Eu concordo que a poesia, em geral, não retrata o grotesco. E quando o faz, é com uma ironia óbvia, como Baudelaire ou Ferreira Gullar, ou com algo de humor, como em A chegada de Lampião no Inferno, ou, afinal, como encaixe de algo maior, heroico, como na epopeia. Racine quis fazer algo como uma epopeia, então manter o cordel seria uma possibilidade - com ou sem uma forma diferente. Se é para apelar para a grandiosidade, talvez o martelo agalopado, ou uma composição própria de rima popular, mas em versos mais complexos, para demonstrar que a situação é bizarra. Mas usar a terza rima aqui implica que o dramaturgo Racine Santos não conhece o sentido da divina comédia. A Drummond e Cecília esse sentido não escapa nem de longe! Apesar de não produzirem algo nem minimamente próximo do que é a Comédia do florentino, eles sabem bem o poder dela. E suas versões amplificam o poder de Dante e revelam posições pessoais sobre a proposta. Falarei dela depois.

Em segundo, colocar a rima de Dante em oposição ao cordel é trágico! É sintoma da perda do Tomás da Bolandeira, ou do frade. Isto é: não se sabe mais o que significava esses personagens. Lampião se curvando diante de padre Cícero ou o Severino poupando enfaticamente o Frade não comunica mais à classe artística. Só sobrou João Grilo, o poeta. Ora, chamemos Graciliano Ramos. Seu romance termina com a declaração do sonho de Fabiano de que seus filhos estudassem para se tornar como Tomás da bolandeira. Não era só o sonho do letramento popular, como veio, duas décadas depois, com Paulo Freire, mas a de aquisição de um discernimento. Se é só pelo letramento, cairíamos ou no patrão ou no poeta ou dono do circo, de acordo com a classe; mas havia uma projeção para cima feita a partir de si mesmo, e essa projeção era colocada na figura do Tomás (possível referência a Tomás de Aquino, o sábio) ou do Frade. Suassuna era João Grilo, como era o dono do circo, mas admirava o Frade, ou o padre Cícero. Dante não representa o mundo oficial corrupto, mas o que nele há de Bom. É irônico colocar Dante como oposto da forma popular, se foi Dante quem primeiro compôs no Ocidente uma obra em língua popular. Tudo bem, na época havia poucos letrados, então, com exceção dos casos de ser pronunciada, só seriam capazes de ler os nobres e poucos letrados. Mas, antes, nem isso! 

Na obra de Racine a escalada vertical some por completo, e Dante se transforma em menos de 1/3 da sua obra mais famosa. O Inferno na Divina Comédia só é uma representação do grotesco na aparência. Para ler Dante é preciso atravessar duas camadas: o aspecto estético e o aspecto moral. Só é possível entender a divina comédia quando, quebrada a primeira dificuldade, de ler em verso, a segunda, de decodificar as imagens, a terceira, de identificar uma aparência de um pai de família ensinando a "moral e os bons costumes" ao seu filho, se possa perceber o centro que vivifica a obra como um todo. Trata-se dA Rosa. A Rosa, que em Baudelaire vira uma Flor do Mal, que em Drummond fura o asfalto e se mostra ao povão, que em Camões vira a Senhora, é algo mais do que só uma rosa. A figura que vem traspassando ocidental: a rosa é também metonímia, por semelhança, do órgão reprodutor feminino. É o símbolo que ora aparece como rosa, ora como mulher amada, distante, morta ou "en passant" e que na poesia mais contemporânea pode ser até mesmo um homem. Há, na Idade Média, a obra O Romance da Rosa, fagulha que em Dante é um incêndio. O que a rosa significa é a Inteligência humana, florescida (e mulher, porque Amor é praticamente sinônimo de Inteligênica, mas esse tema fica para outro dia). É o espírito, enquanto sinônimo de inteligência. A divina comédia não é um tratado moral: mas são os nossos apegos à carne que entravam a inteligência. Aquilo que odiamos, ainda que seja verdade, não será reconhecido como tal; aquilo que amamos, ainda que seja mentira, será tido como verdade. As tradições religiosas chamam de paixões da alma. A posse da própria alma, ainda que se continue a pecar, esse é o tema real da divina comédia. Conhece-te a ti mesmo. Mais contemporaneamente Vilém Flusser trata do tema com o seu História do Diabo. É o mesmo esforço, que é a raiz da filosofia: sem a posse da sua alma, ou do seu coração, não é possível buscar a verdade a sério. Seja como filósofo, seja como cientista. No todo ou na parte. A Divina Comédia é um empreendimento monumental: Dante pega o esquema cosmológico da sua época, o modelo geocêntrico com os 7 planetas, e representa, com ela, o mito gnóstico e/ou alquímico da queda do homem do Paraíso, isto é, do Espírito/Inteligência pura; ao cair, a cada planeta o espírito se reveste de matéria cada vez mais pesada. Como os átomos simples de hidrogênio se juntando até formar matérias mais pesadas, de onde veio o carbono. Esse modelo do cosmos, então, pela tradição cristã, é encaixada nos 7 pecados capitais, de onde Dante compõe a passagem pelo Purgatório. Por fim, o Inferno é a montanha do Purgatório, mas "para baixo", isto é, um vale, onde fica o buraco formado pela queda de Lúcifer do Céu. A diferença dos três terrenos é enre não conhecer-se (Inferno), conhecer-se mas não conseguir superar-se (Purgatório), e as esferas do potencial da Inteligência humana no seu ápice. Por estranho e esotérico que pareça, esse sentido era ao menos genericamente conhecido pelos nossos poetas. E o simbolismo da rosa também! E é daí que brotam os temas da poesia. Boa parte deles não apreende a coisa na sua inteireza, e entre Petrarca e Camões, falando da senhora, em tom meio abstrato, e Tomás Antônio Gonzaga, descrevendo Marília, há já uma queda. Mas entre o que os nossos poetas entendiam e o dantesco contemporâneo, perdeu-se toda a visão da inteligência humana, reduzida a etapa do inferno.

Mas a pasagem do inferno para o purgatório é a tomada de consciência. Então talvez haja como lutar por uma cultura mais alta. Se nossas obras não chamam atenção é porque não têm apelo para a vida comum. E, claro, estética não importa, e ideias não importam, mas a posse da inteligência, a compreensão da cultura para saber viver, são duas coisas urgentes e que todos queremos e precisamos. É nesse tom que se deve buscar literatura. Para conhecer-se a si mesmo e superar-se. E, superando-se, subir, seja individualmente, seja socialmente. E a crítica literária deve ser para repor o valor das coisas, e reensinar a encontrá-lo. Racine Santos, no que se propôs, fez bem. Mas no que errou não foi dantesco, foi grotesco. Em outro momento haverá um texto detalhando a questão do Brasil real e do Brasil oficial. Mas antecipo que não é possível conhecer o Brasil real sem a posse da inteligência. Sem ela, pegamos um pedacinho do Brasil e fingimos que aquilo é o real, sem perceber, como Racine, que estamos reduzindo o mundo tanto quanto a oficialidade o faz. Só pegamos um pedaço diferente, e às vezes nem isso. É tempo de estiagem, e a sobervivência é difícil, mas está embutido no sonho do poeta, de qualquer poeta ou cordelista, o mesmo sonho de Fabiano: ele quer comer, porque quer sobreviver, mas não consegue tirar da cabeça um algo a mais que encontrou em Tomás da bolandeira. A comida vem e vai, mas talvez mesmo na secura, se ao menos o patrão fosse bom, ou se Fabiano soubesse falar, a vida se ajustaria mais facilmente. Por baixo do palco colorido da literatura existe o enredo do homem em busca da descoberta não dos versos bonitinhos, mas do que em nós permite compô-los. É a jornada em busca da flor. Aqui, no nosso pedaço afastado de mundo, talvez não seja uma flor tão bonita, talvez um mandacarú. É feia. Mas é realmente uma flor.




[1] <https://papocultura.com.br/racine-santos-entrevista/> e <https://papocultura.com.br/racine-santos-maior-dramaturgo-do-rn/>

[2] corrigir

[3] <https://www.youtube.com/watch?v=5yeFhO4G2OQ> e <https://www.youtube.com/watch?v=5qJBzJYSdMo> e <https://www.youtube.com/watch?v=xiKzEy1a34k>

[4] informação editorial

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