Parte 1 e um pedaço da parte terceira (e final) de um livreto sobre Platão

 


O texto da semana será um bom pedaço do ensaio informal que tentei montar sobre Platão. Não irei divulgá-lo, a princípio, em nenhum outro lugar. Gostaria de oferecê-lo para venda? Adoraria (ficar RYKA kkk), mas por enquanto não. Então esta aqui ficará como um post informal, ou seja, sem fazer parte da sequência regular. Esta semana deveria ter sido o de Geometria parte 2, mas, enquanto escrevia, senti um forte impulso de pegar esse trabalho sobre Platão que vem me coçando a cabeça já há algum tempo; em segundo lugar, provavelmente o post de Geometria precisará de uma parte 3, então avaliem que eu cansei escrevendo a parte 2, e, pior, vocês cansarão lendo-a.

Masoquistas do mundo,

uni-vos.


Platão: um estudo de técnicas e tópicos

Introdução



Este livreto não pretende ser um trabalho extensivo sobre Platão. Não tenho nem leitura nem capacidade para tanto, nem, diga-se de passagem, de compô-lo com uma forma mais aceita, como um artigo científico ou um livro propriamente dito. A ideia deste livro é oferecer algumas ideias sobre Platão, de modo que possam servir como exercícios de potencialidades do pensamento. Assim, devo também admitir que meu estudo em Platão está incompleto. Tomando de exemplo os 10 volumes pela Editora Edipro, a saber, 6 volumes de diálogos convencionais, A República, As Leis, o volume de suspeitos e apócrifos e o volume de cartas, faltou-me a leitura de:

(Incompletos): Protágoras, Górgias, e, infelizmente, A República;

(Inteiros): Eutidemo, Eutífron, Lísis, e, com igual infelicidade, e As Leis, além do volume de apócrifos e as cartas (para minha infelicidade, incluindo a famosíssima carta VII, sobre a qual sou muito ansioso para ler, mas ainda não veio o momento).

Peço desculpas por este desrespeito, mas se mesmo assim escreto este livreto é porque imagino que consegui coletar algumas ideias úteis sobre Platão que podem servir para o leitor, não (só) como meios de entender Platão, mas como recursos para o pensamento. Sempre faço a meditação de que Platão é o formador de Aristóteles e Euclides, e, juntos, esses dois homens, sozinhos, deram a base permanente das Ciências. Se é assim, Platão é o maior dos professores (humanos). É evidente que Platão, por sua vez, só se tornou quem se tornou por influência de Sócrates, mas de Sócrates só temos precisamente o registro fixado por Platão. Quer nós coloquemos os créditos principais em um ou em outro, ou em ambos, o fato é que os documentos de base que precisamos usar se nossa intenção é tentar entender o fenômeno de “A Inteligência”, como Platão chamava Aristóteles, é preciso passar pelos diálogos. Dos chamados ensinamentos orais (às vezes chamados de “esotéricos”) de Platão só temos registros em obras alheias, em especial fragmentos nas obras de Aristóteles. Desse trabalho ocupou-se extensamente o historiador e filósofo Giovanni Reale1. Como não li toda a obra de Platão, tampouco li também seus comentadores. Em especial porque há a grande problemática da relação da matemática com Platão, que, diga-se de passagem, me desperta profundamente a curiosidade, mas, como leigo, preciso primeiro experimentar vários livros pra gradualmente tentar montar esse quebra-cabeças2. Se escrevo este texto é porque acho que posso fornecer pelo menos algumas pecinhas, menos por um método rigoroso de leitura, e mais por um esforço sincero que implica em duas técnicas: primeiro, a de partir do pressuposto de que há uma mensagem no conjunto de todos os diálogos, a que dou o nome de “unidade da imaginação do autor”; segundo, a de tentar achar utilidade real, para mim, no que lia nos textos, ao que chamo de “princípio da utilidade”. Comentarei brevemente a respeito.

Por “unidade da imaginação”, implica também que não fiz o esforço por fazer toda uma medição de uma possível evolução do pensamento platônico, ou seja, propondo uma distinção entre os diálogos tidos como iniciais (como Laques), os da fase média (como Mênon) e os da fase madura de Platão (como Teeteto). Para mim interessou mais pensar que, independentemente da ordem, Platão não pode deixar de ser Platão. Ou seja, em cada pessoa o corpo em geral e a memória em particular necessariamente cria uma unidade, quer seja mais ou menos consciente, e ainda que pedaços se alterem. Eu enquanto adulto posso ter mudado bastante de quando eu era criança, mas eu não virei outra pessoa. Cada pessoa segue uma linha de transformação, mas elas se constroem como sedimentos que se acumulam no solo, camada após camada. Assim Platão pode ter mudado de ideia algumas vezes, ou até alterado um pouco o estilo nos diálogos, como em Meneexeno, a que suspeitam não ser dele, mas ele não vai virar Aristóteles, nem Teofrasto, nem eu, nem Euclides, nem Homero. Se Menexeno um dia for descoberto apócrifo, mas foi ele o confundido, e não Os Elementos, e isso porque é parecido o suficiente com essa “unidade da imaginação”. Então nisso eu pensei mais, mas, mais ainda, importou para mim o segundo ponto.

Quando falo “princípio da utilidade”, quero dizer que sou um péssimo estudioso, porque não me interessa saber em detalhes o que um autor pensa, mas sim o que eu posso aprender a pensar a partir do que ele pensou. Mais ainda, interessa tanto mais pensar naquilo que aquele pensador pode me ensinar que nenhum outro pode. Nesse sentido, Platão é um poço quase sem fundo de riquezas. A leitura dos diálogos rapidamente se torna um pouco circular, mas o diálogo platônico não é como as imitações que se fizeram historicamente (das quais falarei depois): Platão é poeta, como diz o crítico literário Otto Maria Carpeaux, e sua obra é recheada de símbolos e sentidos, nos pedaços e na ordem em que aparecem. Então ao ler um livro, só engato nele se ele me parece ter potencial de “utilidade”. Se antevejo isso, eu o experimento; se ele me revela de fato ter algo ali, continuo a leitura com gosto; se, mais ainda, ele demonstra ser desses que tem ideias raras, aí não há mais como voltar atrás: rapidamente o adoto como meu professor. Não interessa quem seja: foi assim com um anime como Fullmetal Alchemist Brotherhood, foi assim Olavo de Carvalho, foi assim com a imagem e os ensinamentos de Jesus Cristo, foi assim com a documentação sufi (a mística islâmica) sobre aprendizado e entendimento. Foi assim com Dante, apesar de que este, e com ele falarei da questão poética pra Platão, mais do que os outros, requer um esforço e uma paciência a mais.

De posse dessas duas ferramentas, quero não vasculhar texto a texto, mas propor alguns tópicos e, neles, algumas meditações. Como falei no começo, não tenho condições de compor uma citação precisa, mas, dentro das condições que me cabem, tentarei colocar algumas, para localizar melhor o leitor.

Ainda antes de entrar no nosso autor, acho importante comentar sobre o ato de compor este manual e sua influência na minha formação enquanto leitor de Platão. Se proponho isto é porque, afinal, a ideia deste livreto é que sirva para que o leitor possa aprender Platão; não interessa nem mesmo meu texto, mas sim o seu entendimento. Ler um comentário sobre uma obra pode facilmente substituir o esforço pessoal de absorver a própria obra comentada. Então acho importante fazer este comentário prévio.

Em primeiro lugar, estas anotações não foram feitas enquanto eu estudava, mas só recentemente. Se não me engano, minhas primeiras leituras de Platão foram por volta de 2017, com Apologia de Sócrates e O Banquete, mas a primeira vez que me senti genuinamente apresentado a Platão foi com a leitura de Mênon, o diálogo sobre virtude. Em Mênon eu tive três impactos principais, ou “notas”, sobre o pensamento platônico: o primeiro e maior deles eu não tive palavras para descrever, mas trata-se da técnica que Sócrates aplica com o sofista Mênon, a que só pude descrever com um gesto: com a mão como uma garra apontando para baixo, como se cada dedo segurasse uma ideia, e, todas conectadas ao punho, eu puxo a mão para cima e os dedos se aproximam até se tocar, como um gancho. A segunda foi que Sócrates ensinou logo em seguida para um escravo, e isso ecoou fundo no meu coração, porque ali no escravo eu vi a esperança da educação para todos (fiz inclusive um trabalho aproximando Paulo Freire, Olavo de Carvalho e Platão por meio desse diálogo). A terceira, afinal, foi a própria técnica, bastante conhecida e reconhecida, da maiêutica, o parto socrático das ideias. Daí para frente eu fui experimentando os diálogos, fora de ordem, de modo desordenado. Minha experiência, porém, teve uma marca prévia a partir da interpretação pedagógica de uma nova paideia do educador americano Mortimer Adler, e o “educador de todos nós”, Olavo de Carvalho3. Dessa marca, a que estou imerso desde fins de 2014, cheguei até os diálogos. Sempre leio os livros com uma folha, atualmente de caderno, dobrada duas vezes, que uso também como marcador, para anotar quaisquer ideias ou trechos que me puxem, e, em geral, risco também o livro, nas margens, por influência do Mortimer Adler (foi uma libertação poder riscar, com lápis comum, os textos). Aos distraídos, vale a pena mencionar que é uma técnica muito útil até para manter a concentração, ainda que se perca em ideias, mas que sejam ideias direcionadas ao objeto. E menciono tudo isso porque só neste ano de 2023 que me ocorreu vagamente a ideia de compor um manual sobre Platão. O principal do que falarei aqui eu já havia captado, mas também é verdade que, uma vez que se decida organizar em texto coerente (e não mais como notas de momento, que, aliás, no mais das vezes, eu perdi), surgem novas ideias e novos pedaços, e é possível parar e ver a coisa como um conjunto patente, coisa que, antes disso, estava disperso e latente. Não menciono esse ponto por mera exibição biográfica, é claro.

Em segundo lugar, como dirá Platão nos diálogos, não interessa ler, mas recompor. Um livro, qualquer que seja, e, a bem dizer, uma frase, mesmo uma palavra, não significam algo em si mesmos: significam algo na proporção do nosso esforço de extrair deles significado. Há frases cuja extração de significado se esgota rápido, outras que rendem associações para uma vida toda. Um comentário sobre uma grande obra por definição rende menos do que a obra de que é apenas uma de suas derivações. Platão é para se ler a vida toda, estas frouxas notas, por pouquíssimo tempo. E ainda assim peço e espero que você use estas notas, se gostar delas, para exercício pessoal, mas, sobretudo, que leia Platão e que exercite com ele, não comigo, a sua própria potencialidade de pensar sobre o pensar. Platão é o professor do “metapensamento”. E esse exercício ocioso, “escolar” dos gregos, gerou a nossa ciência e, não parece exagero dizer, a nossa civilização como um todo. É Platão quem pode te ensinar isso, eu não poderia. Então leia Platão como quem quer ser o novo Aristóteles – Ai, diria o tímido, mas isso é muita arrogância; ao que eu respondo que sem ousadia com Sócrates, Platão, Hegel e Olavo, que sem essa ousadia e confiança não se pode filosofar – , mas leia também seus comentadores e, acima de todos eles, o próprio Aristóteles, “discípulo prêmium”, para perceber como a obra do primeiro se expande, idem, para que ela possa brotar e florescer a inteligência que há em você, tal qual em cada um de nós como semente.

Peço desculpas pela introdução longa, mas quero me estender só mais um pouco. Critique-se o quanto quiser a figura do professor Olavo de Carvalho, mas o fato mínimo é que sua presença abriu um grande terreno de interessados em educação “ociosa”, isto é, sem fins financeiros ou acadêmicos, mas para a formação pessoal; a demanda gerou a presença de inúmeras ofertas de livros e cursos. Veja-se, por exemplo, a prolífica publicação da editora Vide Editorial, como também a Editora Concreta, a Kírion, a Sétimo Selo e tantas outras, como também a hoje mais lenta É Realizações. Todas tem influência direta com a ação do professor. É nesse contexto pedagógico que nestes últimos tempos surgem algumas iniciativas de educação clássica, a que sinto que devo mencionar. Há o projeto da Bruna Torlay, atualmente Mestre em Filosofia pela Unicamp e em Políticas Culturais pela Université Paris Diderot – Paris 7, chamado Ascensão da Inteligência, desde 2020, em que ela analisa todos os diálogos platônicos; desse projeto surgiu “O mínimo sobre Platão”, de uma coleção obviamente inspirada no livro de sucesso do Olavo, lançado em maio de 2023. Em abril deste mesmo ano a Natália Sulman lançou o seu “A poética de Platão: Conteúdo e forma dos diálogos”, inspirado em sua dissertação de 2021 pela UFPE. Há, de modo menos focado, o trabalho do Olavo de Carvalho em torno de alguns diálogos, pelo Curso Online de Filosofia, cursos do Instituto Hugo de São Vitor, há o Victor Sales Pinheiro (formado em Filosofia, mas não sei sua subárea), do Rodrigo Gurgel (crítico literário) etc.. Se cito esses é porque produzem tendo em vista um terreno intermediário, ao qual me incluo, que não é nem a produção acadêmica nem uma produção menos focada nas obras, com intuito de divulgação mais popular e ampla, como o projeto 3 Gotas de Epifania de Alexandre Pessôa. Admito que não li nenhum deles, apesar de conhecer algo de suas propostas, ao qual incluo suas obras pela técnica de “unidade da imaginação”.

Por fim, para o possível leitor de Platão, gostaria de mencionar minha experiência com as edições. Na nossa língua, até onde tenho notícia, existem três tradutores que fizeram a obra completa de Platão: o português José Pinharanda Gomes e os brasileiros Carlos Alberto Nunes e Edson Bini. Mário Ferreira dos Santos tinha o planejamento de traduzir Platão e Aristóteles, mas não teve tempo, e tenho notícia apenas de “Das Categorias” de Aristóteles (ricamente recheado, ao ponto da exaustão, não sei se há outros trabalhos dele); há volumes esparsos pela editora Martin Claret e os bilingues da Editora 34. Fora esses, acho que a edição Penguin, da Companhia das Letras, mas confesso nunca ter nem aberto. Tenho um profundo respeito pelo Pinharanda Gomes, que fez parte de um círculo de estudos em Portugal em torno do filósofo Álvaro Vieira, e cujo último rebento talvez seja o Miguel Bruno Duarte (autor de Noemas de Filosofia Portuguesa); esse círculo em especial muito me interessa, apesar de que não tive tempo ainda de estudar. Sei, porém, que eles estão associados a edições de Hegel que circulam no nosso país, e ao redor deles há muita consciência sobre a produção filosófica de suas épocas, coisa que, no nosso país, só vi acontecer seja com a chegada do padre Stanislavs Ladusans, que, logo ao chegar, saiu logo entrevistando cada um dos filósofos vivos para dar uma visão de suas filosofias (Rumos da filosofia atual no Brasil : em auto-retratos, 1976) seja com Miguel Reale no Instituto Brasileiro de Filosofia (um centro de produção cultural riquíssima, a que inclui, por exemplo, os famosos prolegômenos da obra extremamente ambiciosa de Filosofia da História do polímata árabe Ibn Khaldun). Porém (contudo, todavia, entretanto), confesso mais uma vez minha incompetência, porque, sendo Platão, em si mesmo, extremamente cansativo de ler (jamais mentiria sobre isso, e ninguém me faria dizer “ai não eu adoro ler Platão, é divertidíssimo, é como ver o Programa do Ratinho ou brincar de pique-esconde”), ainda mais para iniciante, a edição do Pinharanda, com aquele português formal, pré-era da internet, com “tu” e “vós”, que no Brasil só se acha hoje naquelas velhas traduções do francês da editora Nova Aguillar, me cansou a vista logo no começo. Carlos Alberto Nunes, atualmente pela edição da UFPA, é bastante mencionado, sobretudo porque, como muitos dizem, “ou é ele ou a Edipro, e a Edipro não dá”, bom, confesso que já devo ter mexido, mas não me chamou atenção. O Nunes é famoso pelas suas traduções dos épicos de Homero, dentre outras coisas, portanto é um erudito helenista. Devem ser boas suas edições, mas não adianta pesquisar agora para falar sobre algo de que, se mexi, nem me lembro. Edson Bini se tornou minha referência. Tive forte preconceito no começo ao mexer com o Órganon de Aristóteles, porque o excesso de notas, e a tradução feita de um modo que depende dessas notas, gerou várias confusões na minha cabeça, e, o visual da página era tão poluído que fiquei logo tonto e desisti de Aristóteles. Isso por volta de 2016. Diferentemente de Platão, no Brasil não temos opção com Aristóteles, então quando comparei-o com a edição do Mário das categorias, o texto do Mário é muito mais límpido, a escolha dos termos muito mais brilhante, mas o Mário acresce o livro de tantos comentários, tantos e tantos, de modo que o leitor ao mesmo tempo em que absorve as ideias, tem que absorver também tudo o que acrescentaram depois às noções básicas, de modo que me senti como uma criança que, aprendendo a somar, fosse apresentada ao mesmo tempo a integrais múltiplas ou à Teoria da Relatividade. Voltei pro Edson Bini e fiquei muito feliz lá mesmo. Sobretudo em Platão, em que o texto é mais próximo da fala, e, assim, as notas acabam sendo uma introdução a termos gregos essenciais. Se não é um especialista em filosofia, acaba por compor notas que ajudam o não-especialista a absorver algo daquilo que poderá se acrescentar depois com uma especialização. Jamais tive energia nem dinheiro para mexer numa edição da Editora 34, por mais que me falassem que a tradução era lindíssima etc. Etc.. Pra mim é edição para poetas, ou colecionadores de borboletas a la Cosac Naify. E para ojeriza ainda maior, conto a vocês que li vários diálogos pela Martin Claret. E dois deles me deram ideias que eu jamais teria por mim mesmo: dividir o diálogo em etapas. Foi a edição do Fédon (imaginem eu lendo o livro numa parada de ônibus cuja capa é um homem nu quase por inteiro por trás de um finíssimo véu – perguntas me foram feitas), e a edição do Fedro. Infelizmente não tenho o Fédon no momento para citar, mas a Martin Claret ajustou um sumário com a sequência de tópicos, e no próprio diálogos vemos o momento de introdução de cada tópico. Isso dá uma claridade inexplicável ao diálogo, porque ele, de fato, não é um texto homogêneo: há momentos, há rompimentos de um tópico para entrar em outro; a exemplo, Mênon tem pelo menos 2 momentos principais totalmente distintos um do outro: o diálogo sobre virtude com Mênon e o diálogo sobre a maiêutica com o escravo de Mênon. Essa captação de sutilezas me fez perceber, por sua vez, algumas das técnicas de Platão. Inclusive, a mesma confiança de Sócrates no escravo é a confiança de ao menos experimentar as editoras maltratadas pela opinião, porque, por trás do véu aparências, pode ser que haja alguma riqueza escondida. Senão no todo, ao menos numa parte. Seja com as editoras maltratadas, seja com os autores malvistos, como o Olavo perante a opinião pública, seja o próprio Sócrates perante a opinião pública sobretudo após a famigerada peça do comediante Aristófanes, As nuvens, seja, por que não puxar a sardinha, nestas frouxas páginas, por que não experimentar, ao menos superficialmente, para ver se algo não pode ser útil?

Mas não percamos mais tempo, nem o seu, que me lê, nem o meu, que estou ansioso por escrever, e vamos logo brincar com Platão e seu amor pelo seu professor Sócrates, como também um pouco com Aristóteles e seu amor pelo seu professor Platão. Que a confiança e a coragem inspirem o leitor a entrar de cabeça, não nestas páginas, mas para jogando-as o quanto antes de lado, embarcar na aventura da inteligência humana que, ali na Atenas de Péricles, floresceu como em pouquíssimos momentos da História da Humanidade. Não obstante, se escrevo este texto, é porque eu sinto que, por mais bagunçado que estejamos, por mais que poucas pessoas estejam genuinamente prestando atenção, aqui, neste cantinho tão pouco participativo na discussão das Grandes Ideias Ocidente, detentor de uma língua que vive à sombra do espanhol, e mesmo ele, tão pouco valorizado com relação às demais línguas “ocidentais”, aqui mesmo, no Brasil, estamos vivendo em plena herança de sucessões de movimentos culturais que, se não estão mais presentes, mas deixaram um legado que se soma aqui: seja o Movimento Modernista de São Paulo, o Movimento Modernista do Nordeste, a vinda de tantos imigrantes que adotaram o nosso país com devoção como Vilém Flusser, Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai, Stanislavs Ladusans; a herança poética dos povos árabes (vide Elias Farhat), do povo japonês (vide a tradição de Masuda Goga e o Comitê do Ipê), a tomada de consciência da poética indígena (vide o trabalho de Pedro Cesarino com a tribo Marubo), das diversas poéticas que uma Cecília Meireles e um Manuel Bandeira nos legaram, isso para não falar no multiculturalismo global patente, onde, numa capital pequena, posso ir a um centro islâmico, um centro espírita, uma igreja ou culto e um centro budista num só e mesmo dia. O país de Villa-Lobos, de Câmara Cascudo, do Movimento Armorial, da cultura popular nordestina, riquíssima. Também o país que legou Mário Ferreira dos Santos, que, sob a figura do Olavo, achou um meio de sintetizar todas essas influências, e, após sua morte, encontra-se ainda com seus filhos em plena atividade multicultural. Tudo isso online, na palma da mão. É tanto que é fácil ficar cego e não perceber nada! Mas, se esta não é uma Era de Ouro potencialmente desperdiçada por inconsciência, eu não sei qual outro momento o Brasil pode estar mais preparado para render talvez os seus frutos mais belos para a humanidade. Tomemos, eu e você, cada vez mais consciência, absorvamos nossa tradição, e quiçá, eu e você, ainda que sejamos para sempre dois zé-manés, possamos viver em segredo um florescer que, se não se tornou público, foi visto e vivido por nós.


Sem mais delongas, vamos começar a brincadeira.


Breve comentário sobre Platão e o gênero diálogo

Se a introdução ficou mais longa do que se espera do próprio texto, mas que seja dito que não foi em vão. Há lá, já, muito do que vai ser explicado nas páginas seguintes. Mas, para que este livreto possa ter mais autonomia e conforto na leitura e, valei-me, possível releitura, é útil colocar algumas informações gerais. Não as colocarei com precisão, como, no mais, todo o texto (já disse isso lá no comecinho), mas espero que seja suficiente.

A nossa história se passa por volta do século V e IV a.C., na Grécia, e começa propriamente com Sócrates. Sua figura é tão importante que a filosofia grega, e, por generalização ocidental, a Filosofia como um todo, se divide entre antes e depois de Sócrates. Sócrates, até onde me lembro, era basicamente um herói de guerra, e salvo engano trabalhava no ramo da construção civil, mas, durante o período geral em que o conhecemos, como um velho, por volta dos, imagino eu, 55 a 70 anos, ele era algo como que aposentado. Era casado com Xantipa, e, segundo vi, por filme, teve 3 filhos. Não me recordo deles dos diálogos, e, aliás, a mulher tinha presença praticamente nula em Atenas. Acho que foi Ortega y Gasset quem dividiu o mundo em dois momentos: um com tendência mais masculina e outro com tendência mais feminina. A Grécia dessa época estava no primeiro, e isso significa que as mulheres ficam em casa e os homens se ajuntam entre si: há uma ênfase na força e nos corpos masculinos, de modo que a homossexualidade ocorre com mais frequência. Não interessa a discussão de se é o meio, a genética ou ambos o que gera a homossexualidade, o fato é que era algo comum, ao menos nas classes mais abastadas, e mais especificamente, na modalidade de pederastia, ou seja, os mais velhos com os mais jovens. Se menciono isso é porque a Atenas que vemos nos diálogos tem essa ênfase no desenvolvimento e exposição do corpo masculino juvenil, é porque é onipresente a questão da educação desses jovens, seja no corpo, seja na alma, e porque – ai ai ai! -- há uma aura de broderagem em torno de Sócrates. Há quem o acuse de pederastia, mas, sinceramente, não vejo absolutamente nenhum fundamento; mas Sócrates, sempre mencionado nos diálogos como homem de rosto bem feio, frequentemente “flerta” com os mais novos, o que, no contexto dessa Grécia musculosa e guerreira, não parece nada demais. Um único momento há um excesso desse traço, que é no diálogo Cármides, mas o deslize de Sócrates fica perfeitamente coerente com a proposta do diálogo, de modo que pode facilmente passar por técnica teatral.

É essa nossa Atenas, meio suspeita, rodeada de jovens e velhos, e com inúmeras preocupações sobre a formação dos mais jovens. Não sei o suficiente do contexto grego da época, mas em Laques é mencionado sobre os grandes feitos do período anterior ao de Sócrates, e o quão pouco eles próprios fizeram, de modo que não seria do exemplo deles que se poderia educar as novas gerações. É preciso lembrar que as epopeias de Homero, por exemplo, representavam os “grandes feitos”, e havia uma preocupação em coletar os exemplos de honra justamente para formar os mais jovens. Eles se organizam por volta da militarização da sociedade, porque as cidades-estado grego nunca estão seguras, seja dos arranjos umas com as outras, seja dos bárbaros, isto é, do povo de línguas e história estrangeiras e hostis. Se temos hoje ao menos uma aparência geral de paz mútua – mas a um bom observador sabe-se que não é verdade, se existe um medo frequente da classe média, que não tem como pagar seguranças ou viver em bons locais, da criminalidade, isto é, do ataque interno dentro da própria cidade, e se, por exemplo, a Rússia entrou em guerra com a Ucrânia com tanta facilidade, isso para não falar na competição econômica, que é a versão moderna da luta. Então o mundo não estava em paz (e não está), mas não havia mais exemplos próximos para ensinar o que era ser um cidadão forte e virtuoso, isto é, bom de corpo e de alma, para aguentar os revezes da vida de fora da pólis e de dentro, respectivamente. E aí entra o nosso Sócrates e seu esforço pedagógico para tentar achar o modo certo de educar os jovens para o futuro.

O essencial para entender a personalidade de Sócrates é contado em 3 diálogos: a Apologia, o Críton e o Fédon. Pode-se acrescentar também O Banquete, mas esses três, até onde sei, são essenciais, e formam mesmo uma narrativa. Como você, leitor, deve saber, Sócrates foi condenado por Atenas por estar bagunçando a ordem pública e corrompendo os jovens4. Sócrates, que devotou a vida a defender Atenas, quando jovem, e a meditar sobre a formação para a futura Atenas, na velhice. Como uma democracia (naquele momento), a ele é dado a chance de se defender, e, aos cidadãos, para votar se devia ou não ser condenado à morte por ingestão de veneno (cicuta). “A Apologia de Sócrates” são os seus discursos de defesa, tal como contados por Platão, e, neles, temos uma imagem da busca de Sócrates, impelido pelo oráculo de Delfos, para buscar quem era o mais sábio de Atenas. O Oráculo disse que era Sócrates, mas este não quis acreditar, e saiu, por assim dizer, medindo a sabedoria dos outros, tentando colocar-se para baixo. Há a chamada ironia socrática, que acontece justamente nesses momentos: não sabemos se ele está sendo sincero quando se rebaixa, ou se é um truque, isto é, se ele de fato se considera já o mais sábio ou se está tentando dar a chance ao outro para ver se ele é que é mais. Mas fica evidente, no drama que Platão compõe no texto, que Sócrates domina tudo o que está acontecendo e mais que não está acontecendo, de modo que tudo ganha um tom de ironia da parte de Sócrates, como se ele zombasse de todos, ao que é sintetizada na famosa frase “só sei que nada sei” (não que a frase signifique só isso, mas é isso também). Salvo engano a frase não é dita exatamente com essas palavras, mas é sobretudo na Apologia que ele fala palavras que fazem entender isso (diga-se de passagem, também não existe uma cena escrita de Édipo confrontando a Esfinge, isso faz parte da tradição sobre o tema).

Sócrates é condenado à morte. Dizem que um dos motivos fundamentais para isso é a popularidade das opiniões do famoso comediógrafo Aristófanes, que, dentre outras zombarias, zomba da postura de Sócrates, colocando-o como mais um sofista (não que não o vissem assim antes) na sua peça As Nuvens. Não a li, confesso que meu desprezo até o momento foi maior do que a minha curiosidade; para mim Aristófanes é, para Sócrates, o que Voltaire é para Leibniz: alguém que não compreendeu nada, mas fez chacota. Sendo bom escritor, a chacota venceu, ao menos temporariamente, a verdade. Li Cândido de Voltaire, sem nem um sorriso sequer, e lerei a versão de Aristófanes um dia (e admito que gostei de Lisístrata). Mas, voltando, em Críton temos Sócrates na prisão, não lembro se antes ou depois da sua tentativa de Apologia. E lá um discípulo seu vem e lhe dá a chance de fugir de Atenas. Mais uma vez, vemos aí estampada não só uma experiência pedagógica, como também uma amostra da personalidade de Sócrates.

Por fim, há os momentos finais de Sócrates. Ele passa junto de alguns de seus discípulos, que o ouvem compassivamente, em meio a lágrimas. É o próprio condenado, Sócrates, quem os anima e os manda que parem de chorar, e aceitem a vida de frente. Ali, que imagino como uma caverna, vemos a última lição de Sócrates, sobre a vida e a morte, sobre a alma e a sabedoria. O resto é história.

Para os interessados, há pelo menos mais dois depoimentos sobre Sócrates, até onde sei. Um é de Xenofonte, assim como Platão, discípulo de Sócrates, e outra é de Diógenes Laércio, com sua obra Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, mas sua obra já é cerca de 600 a 700 anos depois do ocorrido: é uma compilação de informações a posteriori, enquanto que Platão e Xenofonte estiveram ao vivo com o mestre. Ao que dizem, o Sócrates de Platão é mais nobre, e o de Xenofonte é algo entre Platão e Aristófanes, entre um trágico grego e uma comédia: em suma, é mais “sóbrio”. Diga-se de passagem, a sabedoria jamais é a busca pela sobriedade, mas pelo enebriamento da sabedoria. Conta-se que Tales caiu num buraco por viver olhando para o céu, e ele preferiria arriscar cair do que perder a “visão do alto”. Quantas inúmeras vezes na história, seja entre os sábios, os profissionais que arriscam a vida por uma verdade (como retratado em Um Inimigo do Povo, de Ibsen), os santos, a sobriedade não seria apegar-se a mentira, e foi preciso demonstrar a disposição para entregar-se de corpo, alma e sanidade, apossar-se mesmo de um ideal que vale mais do que si próprio, de modo a encarnar, nesses momentos, os arquétipos do que há de mais nobre no ser humano? Não, não, a sobriedade é para os fracos. Também os bêbados são fracos, mas aquele que vai da “bebedeira” para a sobriedade e para um novo “enebriamento”, é este que vira História.

Platão era um desses jovens que rodeava Sócrates em busca de seus ensinamentos. Sócrates não chegou a fundar escola: era apenas um civil, ao que, como disse, imagino ser aposentado ou algo análogo a isso, e que interagia com a cidade e seus moradores. Já Platão, não: de família abastada e, salvo engano, ligada à política ateniense, Platão foi criado para ser político. Esse nome é o apelido que recebeu ainda jovem, e significa, na linguagem corrente, “o bombado”, ou, de modo mais formal, “o de ombros largos”. Platão era forte, mas ao longo do tempo se desiludiu com a política. Salvo engano foi em História do Pensamento Econômico, de Henri Denis, que vi que as famosas viagens que Platão fez ao Egito foram com o intuito de persuadir os governantes a adotarem a postura que ele tinha como ideal, que tinha um cunho pacifista e com fins de trazer Sabedoria ao reino. Obviamente foi rejeitado, e, aliás, feito cativo, salvo engano mais de uma vez. Em um ambiente cujo centro é a necessidade de proteção externa, a política é obviamente um assunto de vida ou morte. Não há espaço para Tiriricas no poder, porque uma decisão errada e a cidade pode ser tomada. Por política, entenda-se a organização do exército e da legislação interna, isto é, manter a ordem externa e interna do povo. Em um povo cuja forma de poder seja algo como a monarquia, um rei que não demonstre força e virtude desvirtua o seu povo – essa é a lei geral, seja na Grécia, como ilustrado na trilogia de Orestes, do tragediógrafo Eurípedes, seja na China, como ilusta o Tao Te Ching de Lao-Zi. A democracia dissolve um pouco essa lei, mas ela continua sendo a preocupação fundamental. Platão aprendeu com Sócrates o valor da Sabedoria, mas viu continuamente no próprio exemplo do mestre que o mundo tinha outras escolhas. O drama das andanças de Platão lembram as de Sócrates. Mas este tinha uma postura mais passiva, até pela idade, e sequer deixou escritos; Platão tinha uma veia política: se suas ideias não foram aceitas pelos governantes, mas ele fundou a sua escola, a Academia, e passou seus ensinamentos adiante, com mais estrutura do que seu mestre. É aqui que entram os diálogos. Mas, antes de irmos a eles, é preciso notar que, dos alunos da Academia, houve o maior de todos, que é justamente Aristóteles.

Aristóteles era um estrangeiro de Estagira, filho de um médico, chamado Nicômaco. Talvez por ser filho de médico e, como estrangeiro em Atenas, não tinha o mesmo apego que Sócrates e Platão à terra, o fato é que Aristóteles foi essencialmente um naturalista, ou um polímata. Seu maior discípulo (para não falar de Alexandre, o Grande, de quem foi preceptor) foi Teofrasto, cujas obras principais são sobre plantas e sua biologia. Aristóteles tem vários manuscritos em que descreve a história e biologia dos animais, e, dizem, tinha também sobre plantas, mas foram perdidos. Mas Aristóteles estudou tudo: dos animais e plantas ao sonho e à alma (a vida presente nos seres vivos), do Céu ao movimento na Terra, e “movimento”, em grego, implicava tanto o movimento espacial como a transformação no tempo (como envelhecer ou o brotar de uma semente), então a própria língua puxava as meditações sobre a transformação dos seres, ou sua geração e corrupção. No diálogo de Parmênides temos uma amostra desse traço grego. Em meio a todos os estudos, e Aristóteles tinha sua técnica de coletar tudo o que já ele tinha acesso do que foi dito pelos mais sábios no assunto e então organizar e categorizar a informação – coisa que ele aprendeu com o mestre – , de modo que, muito provavelmente desse exercício nasceu a meditação não da física (movimento e, em sentido amplo, a natureza em geral), mas sobre as categorias da física, ou seja, a metafísica. Seja sobre tudo isso, ou ainda sobre as leis, a moral e a ética, a produção literária ou o discurso humano, Aristóteles falou de tudo. Depois de cerca de 20 anos, segundo Émile Boutroux, estudando com Platão, Aristóteles sai e funda seu próprio modelo de escola, o Liceu. Se Platão, herdeiro da influência dos sofistas em Atenas, pensava na preparação de sábios políticos, Aristóteles se preocupou em formar “cientistas”, tal como ele. Entre a distância tão grande de estilo de Sócrates, Platão e Aristóteles transita o elo perdido da compreensão da civilização humana, pois Sócrates não deixou obras, mas de algum modo gerou um Platão, e Platão focava em política, mas de algum modo formo o maior de todos os cientistas. Qual é a relação pedagógica que conecta os três? Eu não faço ideia.

O fato é que, por volta do tempo de Sócrates, o mundo grego foi tomado pelos sofistas, que eram basicamente homens que adquiriam conhecimentos mais ou menos esparsos, às vezes especializados, mas cuja principal função era ensinar jovens a arte do discurso para vencerem num ambiente democrático. Uma das missões fundamentais do trio da filosofia foi demonstrar que esse conhecimento assistemático não cabia mais para sustentar uma civilização por muito tempo5 (como, aliás, se prova logo em seguida, onde, salvo engano, Atenas foi tomada). Atenas era a cidade de ouro do florescimento cultural, e tudo girava em torno do discurso. Assim, como no discurso político, se popularizou a arte do “diálogo”.

O diálogo era basicamente um método de pergunta e resposta. Diz Sócrates em Górgias (461e-462b6, p.64): “respeita o sistema de perguntar e ser perguntado alternadamente, como eu e Górgias, podendo assim tanto refutar quanto ser refutado. […] Compartilhas também, com ele a postura de nos convidar a perguntar a cada passo qualquer coisa que quisermos, na qualidade de alguém que sabe como responder? […] Agora age como quiseres no âmbito destas duas opções: fazer perguntas ou respondê-las.” Nessa cena, Sócrates estivera há pouco discutindo com Górgias, sofista muito famoso e importante, e, daí por diante, quem está para assumir o diálogo é um jovem admirador do sofista, chamado Pólo. Sócrates ensina um pouco as regras do método do diálogo para facilitar para o jovem. Esse método era familiar aos sofistas, mas, como tentarei mostrar aqui, Platão transforma o diálogo numa verdadeira arte de grande poder. Até onde tenho notícia, a única vez em que vi algo parecido com o que Platão fez, mas bem menos sofisticado, foi em um manual de ensinamentos sufis, que, por meio de fábulas, ensinava algumas técnicas de discernimento. Mas o próprio sufismo, diz-se, é derivado do platonismo.

Quero fazer uma breve comparação do uso de diálogos, mas, antes de mais nada, é preciso dizer mais uma vez que Platão tinha, além dos diálogos, ensinamentos a mais. Os diálogos eram muito provavelmente exercícios, eram uma forma de treinamento dados aos alunos, mas na Academia havia os ensinamentos diretos do próprio Platão, do qual só temos notícia por fragmentos esparsos nas obras de outras pessoas. Se não me engano é Aristóteles na Metafísica, por exemplo, que comenta sobre a matemática em Platão, e solta algumas informações a respeito, que indicam um estudo de uma matemática, digamos, voltada para a sabedoria. Mas o fragmento propriamente matemático que temos dos diálogos vem de Mênon, e a princípio trata-se apenas, salvo engano, do cálculo de uma hipotenusa por uma operação geométrica. Não há nada, a princípio, que conecte um ensinamento com o outro, e esse elo é precisamente o que Giovanni Reale tenta estudar.

Sendo assim, os diálogos eram como que um treinamento para a inteligência do aluno. Como você poderá ver ao ler os textos, Platão geralmente não solta as respostas finais dos temas. Se você entrar num diálogo esperando que terá uma resposta para o tema, vai sair decepcionado. Aliás, uma das grandes problemáticas da existência humana estão no fato de que Platão nunca deu uma definição do que era o Belo. Maldito seja, homem de Zeus! Ou, como diria Sócrates nos diálogos, pelo cão! Ele trata do tema no Hípias Maior, e… não o resolve! O problema que isso gerou foi colossal, porque ninguém mais deu uma solução, e, no problema do Belo está o centro de todo o conhecimento humano: falar em Beleza é falar em duas coisas, ora vistas separadas, ora vistas juntas. Uma delas é sobre a relação dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar, tanto) com o mundo externo; outra é a busca por um critério fixo de avaliação do que é recebido pelos sentidos. De um lado é Estética no sentido de Baumgarten ou Kant, de outro, no sentido de Hegel. Nenhum dos dois sentidos foi propriamente resolvido, menos ainda articulado: os dois primeiros rompem com o sentido do segundo e vice-versa. Estou dizendo isso para dizer que: Platão não vai te dar respostas, vai te dar problemas. Pior ainda, quando ele der uma resposta, se é que ele deu alguma, você nem vai lembrar. É a velha anedota de “o verdadeiro tesouro escondido são os amigos que fazemos pelo caminho”. “Mas eu vim atrás de ouro!”, você pode exclamar, e, nesse caso, vamos conjeturar, senão sobre o ouro, ao menos por que esses amigos teriam algum valor tanto quanto o ouro. Para isso precisamos entender a arte platônica do diálogo. E, antes de entrar nela, vamos falar do que mais há de diálogo por aí.

Até o momento eu li apenas, incompleto, um diálogo de Santo Agostinho, um completo e um incompleto de Cícero, parcialmente o de Leibniz e um do brasileiro Vicente Ferreira da Silva. Cada um tem um problema particular e, apontá-lo já é entrar na distinção do diálogo platônico. Vou focar nesses quatro, mas há ainda Giordano Bruno e Galileo Galilei. Vamos por ordem histórica.

Agostinho é assumidamente platônico, e interpretou a visão de um mundo de Sabedoria, aqui pensada no seu nível ainda superior, que seria a santidade, em comparação com o mundo comum. Como Platão na sua imagem de República, Agostinho compõe a cidade dos homens e a cidade de Deus. Ele compôs, como Platão, alguns diálogos. O que tive acesso foi o De Magistro, sobre o professor, pela editora Kírion. Não terminei de ler. A marca central desse diálogo é um tom fortemente oral. É possível sentir que são palavras escritas tal como vêm a boca, e facilmente uma conversa entre duas pessoas, se gravada, poderia ser transcrita e ficar tal como está no texto. Os diálogos platônicos possuem um forte teor teatral e simbólico, no sentido de que os personagens e as situações que acontecem tem um significado em relação ao tema; aqui também isso acontece em alguma medida: fala-se sobre professor, e o diálogo é o próprio Agostinho conversando sobre o assunto com seu filho. Não há, até onde vi, maiores elaborações, exceto o desenvolvimento do raciocínio para esclarecer o tema proposto.

Dos demais diálogos apontados, o do famoso orador e jurista Cícero é, não por acaso, o mais bonito. Li o Sobre a Amizade e Sobre a Velhice, em uma edição popular, e, de fato, foram os mais agradáveis. O fator teatral está mais enfático: no primeiro são, salvo engano (não tenho o livro perto pra citar) dois amigos de longa data, dialogando um com o outro sobre o teor e a importância da amizade; no segundo, é um velho falando para jovens sobre a velhice. Diz Carpeaux que Cícero e a cultura romana era como que uma válvula de escape cultivada com muita dificuldade numa época e povo que tinha interesses excessivamente práticos. Ainda assim, o jardim de Arcádia foi plantado no meio da poderosa Roma por nomes como Cícero. Mas, de novo, o tema se restringe a si mesmo e, apesar de ser mais conclusivo, como suponho ser também Agostinho, não há muito mais do que isso.

Leibniz foi um horror! Aliás, não terminei de ler, mas quero muito. Diz-se que ele tentou se comunicar com alguns filósofos importantes, como Isaac Newton e John Locke, mas eles, sei lá por que, não aceitaram a comunicação. O grande debate de Leibniz não foi com Newton, foi com um representante dele, o newtoniano Clarke. E Locke se recusou a responder Leibniz, de modo que este tentou compor a conversa que gostaria de ter tido com o outro em texto, em forma, portanto, de diálogo. Aqui já não há mais símbolo, é realmente um bate-papo no modelo de pergunta e resposta. Leibniz, que era o filósofo que apostava que mesmo com o caos o mundo tinha uma ordem total cognoscível em certa medida. Ele desistiu de publicar o diálogo, porque, afinal, seu interlocutor morrera pouco depois. Muito depois, acho que, inclusive, após a morte de Leibniz, o diálogo foi editado e lançado. Trata-se do longuíssimo, cansativo, porém curiosíssimo, Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano.

Por fim, um caso brasileiro de diálogo: Vicente Ferreira da Silva. Eu realmente não sei quase nada sobre ele, e achei esses diálogos por acaso há um ou dois anos, em um volume solto e isolado na biblioteca de obras completas do autor. Li o Diálogo do Mar, escrito em Praia Grande, 1962. Jamais negarei o fator de que o aspecto teatral está bem desenvolvido: a ideia de mar, da água e das ondas é retomada como símbolo lá pelo final do diálogo, o que é muito bom. Porém, escrito no século XX, o Vicente tenta retomar as discussões não mais com fins pedagógicos, mas com o vocabulário técnico adquirido ao longo do tempo; também os personagens não estão bem desenvolvidos, são ele próprio. Imagine, então, três amigos numa praia, e, do mais absoluto nada, eles começam a falar: “Aqui, diante do mar, sinto mais do que nunca esta impressão: que o Mar, a Natureza e a Vida, como uma só coisa, é algo de forte e primordial. […]”. Ao que é respondido: “[…] você há mais tempo, já me falou acerca de suas predileções rousseaunianas pela Telus Mater. Aliás, você sabe que pode contar com minha irmã nessa nova ‘zurück zur Natur’ […]” (piora). Todos falam alemão, todos têm domínio da linguagem filosófica, e todos estão igualmente dispostos a, no meio de uma andança na praia, falar de coisas que falariam numa sala de aula. Apesar do bom uso do recurso teatral (com a falha nos personagens), ao terminar o diálogo, com muito esforço, fiquei com a impressão de que saí com menos do que entrei.

E Platão?

Como falei, este livreto não pretende ser uma demonstração extensiva, mas posso listar algumas características do diálogo platônico a fim de que seja possível melhor extrair dele seu valor e utilidade.

Primeiro, o diálogo é como um texto teatral. Ele é literalmente organizado assim nas nossas edições, isto é, logo ao começo existe uma lista dos personagens, e o texto segue com o nome de cada personagem seguido de sua fala, como no texto teatral. A princípio, formalmente falando, parece acabar por aí a semelhança. É que o teatro grego não tem as divisões formalmente estabelecidas, tal como em Shakespeare e até hoje, de atos e cenas, que demarcam um avanço no tempo e mudança de espaço. Mas os personagens entram e saem, e a presença do coro consegue marcar uma passagem de cenas, de modo que temos a mesma sensação como em um filme do avanço do tempo e da transição de cenas para compor uma história completa. Do mesmo modo, o texto platônico não tem divisões bem claras (se digo isso é imaginando como seria um texto desses hoje), mas o condutor do diálogo, em geral Sócrates (mas temos, por exemplo, Parmênides no diálogo homônimo), claramente transita de uma proposta para outra. Já mencionei o caso de Mênon, em que há inclusive a alteração do interlocutor de Sócrates, o que claramente demarca atos distintos. E as cenas são como o que a edição de Fédon e Fedro da Martin Claret conseguiram demarcar, isto é, os tópicos centrais em que o diálogo dos personagens vai se direcionar. Então em todo diálogo temos uma breve introdução dos personagens até o ponto em que começam a dialogar, e, daí por diante, são as fases da argumentação que se encerram numa decisão ao final.

Ainda no mesmo ponto, existe também, como já mencionei, a escolha dos personagens. Se Platão quer falar sobre beleza, o interlocutor de Sócrates é Hípias, a quem dizem ser muito belo; se é sobre coragem, entram políticos e generais ilustríssimos na época, como Nícias e Laques. Em Crátilo, a discussão sobre a adequação do nome às coisas, aparece o Hermógenes, cuja decifração do nome pode ou não ter um significado profundo. Não tenho aqui Timeu comigo, mas lembro que ele além dele ter vários conhecimentos, é chamado por Platão de poeta (esse ponto será tratado depois). E não há ninguém mais do que o próprio Parmênides que poderia conduzir com efeito o seu diálogo homônimo sobre o ser. Por fim, o valor dos três diálogos dramáticos que mencionei sobre a personalidade de Sócrates não restam dúvidas sobre o seu valor dramático e simbólico (a defesa, a possibilidade de fuga e a morte de Sòcrates).

Vamos tentar imaginar como seriam diálogos numa linguagem de hoje? Sem colocarmos um protagonista, por questão de polêmica7, mas imaginemos um Sócrates que estaria rodeado, por exemplo, dos seguintes personagens: 1) num diálogo, podemos colocar Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro de grande prestígio, e Wolfgang Smith, físico americano e estudioso de religião comparada: um representa o lado material da ciência, outro, o seu lado formal, de modo que eu coloco os dois para dialogar, por exemplo, sobre cosmogonia e a discussão se direciona entre se é o cérebro humano quem cria a realidade tal como vemos ou se a realidade existe em si mesma; 2) num outro diálogo, só a título de imaginação, digamos que se coloque Arnold Schwarzenegger, fisiculturista muito famoso, depois, político americano, algum psicólogo como o Mihaly Csikszentmihalyi (autor de Flow) e um místico como o abade Bernardo Bonowitz para discutir sobre o que é uma vida humana vivida com o máximo de perfeição; 3) Agora imaginem que pegamos um padre Óscar Quevedo (isso non ecziste), pesquisador reconhecido por tentar materializar a religião pelas investigações de parapsicologia, e Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, o filho do Olavo, especialista em religião comparada, e colocamos ambos para dialogar sobre as camadas de fenômenos que se apresentam ao ser humano pelo fato deste ter uma razão e o que significam. Esses temas, porém, estão muito mais “abertos” do que um diálogo platônico: se é para ser como Platão, seria necessário no mínimo que esses temas se fechassem numa chave geral, que fosse, por exemplo, Cosmovisão, no primeiro, o Bem, no segundo, a Sabedoria, no terceiro. Assim, menos pelas palavras e mais pela posição relativa que cada personagem ocupa seria possível aprofundar desses tópicos gerais para os tópicos mais específicos que mencionei, ainda que eles só aparecessem discretamente no diálogo.

Segundo, o diálogo não é só um texto teatral, ele contém técnicas. E isso é o centro da proposta deste livreto. Talvez a marca de distinção essencial do diálogo platônico pros demais diálogos é que a maneira como Sócrates vai compor seu argumento, quando tomada em si mesma, forma ela própria um recurso útil para aplicar em qualquer outro argumento. Ou seja, Platão não está apenas fazendo perguntas para direcionar a um conhecimento mais verdadeiro, ele está, ao mesmo tempo, escolhendo o modo como Sócrates vai compor o argumento, de modo que seja possível entrever recursos do pensamento humano. Esse ponto não vi em nenhum diálogo que investiguei, e, na verdade, como já disse, o mais próximo de achei desse recurso de Platão foi em um texto sufi (O Sufismo no Ocidente), que expressamente usa de fábulas para explicar recursos da inteligência humana. Se, porém, é verdade que o sufismo é derivado de Platão, então não há propriamente inovação aí, e, se é assim, é Platão e só ele quem organizou esse recurso. Aliás, “organizar” não é a palavra, porque, ironicamente, Platão não fez, com essas supostas técnicas, o mesmo que Sócrates exige, nos diálogos, que se faça de qualquer assunto, isto é, organizá-lo em seus aspectos, mais ou menos como Aristóteles fez em suas obras, porém se Platão só fez diálogos e Aristóteles os tratados, esse tema das técnicas nos diálogos, até onde vi, se não foi abordado em nenhum dos dois, também não veio à tona de modo explícito nos trabalhos eruditos ao longo da história. Devo estar redondamente enganado, mas falo do que tive acesso até então.

Então, é deste segundo ponto que posso iniciar propriamente a parte central do livreto e finalmente fechar esta introdução. Espero que tenha sido suficiente para contextualizar o essencial para mexer com Platão (e quiçá Aristóteles). Agora vamos ao banquete principal. Depois, teremos uma sobremesa, e, por fim, um chazinho para ajudar na digestão.

1Para uma nova interpretação de Platão: Releitura da metafísica dos grandes diálogos à luz das 'Doutrinas não escritas', Giovanni Reale, publicado primeiramente em 1984.

2Para os interessados, posso soltar algumas pistas do que consegui até agora. Há em especial dois estudiosos: David Fowler (The Mathematics of Plato’s Academy, 1987) e a dupla de estudiosos da UFRN John Fossa, historiador da matemática, e Glenn Erickson, não sei precisamente sua subárea, mas é em filosofia clássica (em especial, A linha dividida : uma abordagem matemática à filosofia platônica, 2006; Número e razão: os fundamentos matemáticos da metafísica platônica, 2005). Existe, evidentemente, os estudos do que se legou como Quadrivium, ou as quatro artes liberais ligadas à matemática, a cuja inspiração e raiz retorna a Platão (e Pitágoras), mas, nesse sentido, a bibliografia é bem ampla, e uma visão dela pode ser obtida pelo livro do Mortimer Adler sobre matemática e ciências para a educação liberal (Foundations of Science and Mathematics, livro 3 de uma coleção de introdução às grandes ideias), mas não são estudos de Platão em si, e sim dos seus efeitos na cultura.

3Apesar do risco de perder os parcos leitores, é necessário colocar estas informações. Dos dois, foi Mortimer Adler quem primeiro me influenciou, mas, diga-se de passagem, foi o Olavo quem trouxe sua reedição (em parte um indício mais direto seria o artigo, presente em O Mínimo… , de 2013, chamado Pela restauração intelectual do Brasil, por sua vez lançado em 2006) pela sua influência facilmente descoberta online com a É Realizações. “Como ler livros” foi publicado em 2010, mas com o lançamento e sucesso de vendas de O Mínimo… os livros mencionados pelo Olavo entraram em alta demanda, e, sem saber, interessado por motivos pessoais na questão da leitura, uma coisa foi levando a outra. Mas a obra educadora do Mortimer Adler é imensa, e tive a chance de traduzir o seu livro Foundations of Science and Mathematics, mencionado na nota 2, que faz parte da coleção The Great Ideas Project, um projeto integrado ao seu Paidea Proposal, por sua vez um grandiosíssimo projeto em que o Mortimer Adler se associou com a maior enciclopédia de meados do século XX, a Enciclopédia Britânica, e, junto com uma grande quantidade de scholars, selecionaram os livros que mais influenciaram as ideias do presente e construíram não só a coleção Great Books of the Western World, como também os dois volumes de Syntopicon, dois grandes livros (em tamanho e poder) listando o que acharam como as 102 ideias mais importantes do Ocidente, em seguida separaram os principais subtópicos e fizeram uma lista em onde encontrar os trechos que movimentaram essa discussão dentro dos Great Books. Mais ainda: há duas coleções de volumes, uma para introduzir aos Great Books (Gateway to the Great Books, a que, sinceramente, não tive nem meios nem interesse em mexer) e o Great Ideas Program (10 volumes temáticos ensinando o leitor a ler os livros clássicos: o sumário pode ser visto aqui <https://web.archive.org/web/20201115023523/http://www.thegreatideas.org/tgi-program.html>. O projeto do Mortimer Adler, se tinha a intenção de formar um cidadão consciente do terreno de ideias em que sua sociedade se baseava (não apenas as econômicas, como é o caso de Paulo Freire), o projeto do Olavo de Carvalho, a que requereria uma nota de rodapé muito mais extensa, é análogo ao do Mortimer Adler, mas acresce-se o esforço de 3 pontos: 1) ir além da discussão do Ocidente, acrescentando as demais discussões; 2) também porque interesse pensar em futuros possíveis da discussão, ainda mais em um contexto globalizado; 3) para ambos os pontos, é preciso, ainda mais no caso brasileiro, a aquisição de uma força e consistência na personalidade, que é totalmente inexistente no trabalho do Mortimer Adler.

4Lembranças me vem à mente, lembranças que não devo contar.

5A mão novamente coça para contar coisas, mas também não cabe aqui.

6Esse tipo de citação existe sobretudo em obras de maior relevância e que ainda se possui os documentos originais. É uma referência direta à posição do texto no documento original, e, assim, independe da edição em que esteja. A edição do Górgias que estou usando é da Edipro, volume 2 dos Diálogos.

7Eu colocaria Olavo, sem uma gota de dúvidas, porque sua posição na nossa sociedade justamente serve de elo de ligação de inúmeras realidades: católicos, protestantes, muçulmanos, esquerda e direita, cultura comum e cultura acadêmica etc..



Parte 2

 Tópicos em torno da obra de Platão

Antes de encerrar este livreto, eu queria colocar algumas meditações que podem ajudar a quem estiver querendo entrar na obra de Platão. Aqui já não se trata mais de um esforço propriamente de aplicar o trabalho de Platão em outras coisas, mas um breve rastreio em tópicos que aparecem nos diálogos e que geraram repercussões na cultura. Como em tudo o mais, não tenho capacidade de propor uma bibliografia e estudo extensivos, mas acho que consegui algumas pistas que podem ser úteis.


 b) O problema de Platão com os livros

É em Fedro a base para a crítica à crítica que Platão faz aos livros, ou à escrita. A citação específica em que Sócrates menciona a crítica é sem dúvidas a que mais vezes vi. Eu vou colocá-la integralmente. Trata-se de uma narrativa que Sócrates conta sobre o deus egípcio Thot, que teria inventado “os números e o cálculo, a geometria e a atronomia, o jogo de damas e os dados, e também a escrita” (274, p. 118) em um diálogo com o governante do Egito à época, Tamuz. Thot pediu ao rei que suas artes fossem ensinadas ao povo egípcio, mas Tamuz pediu para saber a utilidade de cada uma. Ao ouvir a utilidade da escrita pelo deus, Tamuz responde:

“Tu, como o pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória: confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas para a recordação.” (274-275, p. 119)

Mas como eu disse, colocarei a citação completa. Esta última frase em geral nem mesmo aparece. Mas, prosseguindo, Tamuz diz: “Transmitistes aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. […] [não serão] verdadeiros sábios”. (275, p. 119)

Qual é, afinal, a utilidade que Thot dá a escrita? Diz Thot: “tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria” (274, p. 119).

É importante notar, primeiramente, que o rei está se contrapondo a um deus. E para os gregos a hierarquia era assunto sério. Sócrates mesmo fala no mesmo diálogo que seguiria a alguém que dominasse uma arte bem como a um rei, mas seguiria quem soubesse dialetizá-la como a um deus, o que, pelo próprio discurso mostra que Sócrates obedeceria mais ao deus do que ao rei. Essa oposição que é travada no discurso é entre a função ideal da técnica, ou seja, a escrita, e a função que mais provavelmente ocorrerá. O rei conhece o povo que governa.

Essa ainda é só a camada inicial do sentido do problema da leitura, mas, se estamos nela, vou fazer uma analogia que pode torná-la mais clara. Desta vez Thot deu-nos não a escrita, mas a internet. Se Tamuz perguntasse da utilidade da internet, Thot diria:

– Esta arte [tecnologia] permitirá aos homens ter qualquer informação do mundo à mão. Eles poderão ler todos os livros que quiserem, montar uma rede de comunicação com os maiores sábios do mundo mesmo sem saber o idioma, porque tudo isso e muito mais será lhes dado na palma da mão e gratuitamente1.

Thot certamente saberia se contrapor, mas ele ficou deslumbrado com as possibilidades e deixou a tecnologia existir. Eis que hoje, porém, Thot veria seu povo e diria:

– Esses recursos são ilusórios! Se estão à mão de todos, mas também está a mão o excesso de informação, a falta de discernimento, e a diversão sempre vence a busca por sabedoria. A internet não é um palco de sábios, mas um palco de vídeos de gatinhos e pornografia gratuita. Criastes a tecnologia da sabedoria? Pode ser, mas ela dissolveu os laços da terra, colocou filhos contra pais, tornou a escolha impossível, e o esquecimento uma bênção2.

Em outras palavras, se a internet possui um imenso potencial de uso, possui um potencial de dispersão muito maior. E quem pegar as palavras de Sócrates e comparar com as várias notícias e reclamações que se fazem pelo uso da internet verá que trata-se do mesmo tipo de fenômeno. Diria Marshall Mcluhan, teórico da comunicação, o óbvio: uma técnica não é boa ou ruim, ela “é”, no mais, depende do uso. Qualquer que seja a tecnologia, sempre vai haver a disputa de Thot e Tamuz, do ideal e da prática. Páginas e páginas de discussões e a passagem de milênios não são suficientes para resolver o problema, interno não à técnica, mas ao ser humano.

Mas existe ainda um sentido mais importante da reclamação que Sócrates faz – porque esse trecho, o primeiro mencionado, é usado como se Sócrates odiasse livros e a escrita – e é exatamente o mesmo problema da poesia, ou seja, o registro de uma obra (para falar em termos gerais) não dá o seu entendimento. Alguns exemplos:

I) Olhar para uma catedral gótica pode ser muito prazeroso, mas olhar para ela implica conseguir decifrá-la? Na sua composição o arquiteto fez uso de uma imensa gama de recursos advindos de várias tradições religiosas, e cada escolha – o formato externo, o tamanho,a altura, a quantidade de arcos, o tipo de pilastra etc. – tem uma intenção plenamente consciente. Mas a visão dá obra não dá esses recursos, e, para obtê-los, é preciso uma extensa pesquisa que a maior parte das pessoas nem pensará no fato de que é possível e necessário, ou seja, a catedral não significa quase nada, apenas a ideia geral de “espaço religioso católico” e “algo grande, complexo e bonito”;

II) O mesmo se pode dizer das demais artes. Pegue um quadro como “A Primavera” de Sandro Botticelli e me diga o que significa o que ali sem precisar recorrer a fontes externas. Ou peça para um japonês ou chinês do interior para explicar o que significa o quadro “A Enunciação” (diversos autores). Ou para um ocidental “entender” o poema lírico mais importante de língua japonesa, de um sapo que pula na água (Matsuo Bashou). E assim sucessivamente;

III) Não vou nem falar, mas já falando, da documentação especializada, nas ciências, por exemplo. Ali é evidente que está em outra linguagem, como se fosse uma língua estrangeira, e que é preciso conhecê-la antes para poder decodificar. Mas a verdade é que todo texto, inclusive este, diz algo para o autor, é escrito tanto com uma intenção quanto com um potencial de significado, mas o que fica na superfície é o sentido geral que as palavras oferecem. É preciso um esforço para tentar realmente entender seja o que está escrito, seja o potencial de significado (as conexões possíveis que se pode estabelecer a partir daquele texto). Isso necessariamente não está no texto. A citação de Cármides do tópico anterior ilustra isso.

Esse problema é inerente às obras, e não pode ser resolvido senão pela busca ativa. É disso que Platão está falando nesse trecho, e, aliás, esse jogo de distinções e captação de significado está onipresente nos diálogos. Na fala ao vivo, o que eu digo pode ser entendido errado, mas existe a chance de que a pessoa pergunte e eu ajuste o discurso até ela apreender o sentido do que eu quis dizer. No livro, não. Platão não voltará para nos explicar, então é preciso o esforço para tentar reviver o que ele quis dizer, e como aquilo pode servir para a vivência hoje.

1Não estou inventando: a narrativa que conhecemos sobre o surgimento da internet é que ela veio justamente como um recurso para a troca de informações entre cientistas do mundo. Como também, em geral, as tecnologias vêm para uso militar, e só depois seus usos secundários se espalham popularmente na medida em que a produção em maior escala barateia sua aquisição.

2A consequência geral da internet pode ser sintetizado como o aumento da competitividade. Antes dela, por padrão uma pessoa só competiria com o seu meio imediato, e, só na medida em que buscasse cultura, competiria com outros. Agora ele conhece e tem acesso frequente a pessoas do mundo todo e, se mesmo assim quebrar a ansiedade e quiser se destacar, vai ter que apelar para o que mais impulsiona os homens: seus desejos carnais. Quanto mais alto, maior a baixaria necessária.

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